sexta-feira, 4 de novembro de 2011

De dentro



Dentro de uma gota de álcool me rendo, e desde sempre entendo que olhar é doar, é ser, olhar, amigo; é simplesmente ser.

Dentro dos olhos um mundo, dentro de um mundo um escritor e dentro de mim, o português mal escrito, a língua mal falada, o ditado mal interpretado e a voz muda. Dentro de mim, amigo, o paladar é rude e ineficaz, o murmúrio do coração é tenaz e o grito agudo, um absurdo mudo.

Por fora é só risada, é uma frase calada, é um tiro claro e indubitável. Quem ousa duvidar do meu olhar verdadeiro, de minha pele de cordeiro, da falta de dúvida da vida?
Por fora, nada além de mim, de uma imagem não tão ruim, da falta de dúvida, da cor miúda e da dor invisível.

Mas o dentro e o fora não se excluem. O ser de tanto olhar se equilibra. E quando muito se entende de tudo duvida.

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sábado, 1 de outubro de 2011

Tenho muito medo de mim.


Tenho muito medo de mim.

O meu silêncio me dá medo.

Então eu falo, invento, eu construo
e tento.
Eu faço.
Mas não me calo.
O silêncio me faz tremer os ossos, me faz esquecer do mundo,
me tenta como o diabo, me questiona, me duvida, me prova.
O silêncio me cala.

Ah, medo.
Corro de ti, em segredo.
Me exponho até o último fio de alma, ah que engano,
o silêncio não me cala.
Ele me encanta e dispara a bala.
O gatilho é frouxo.
O diabo é vermelho, amarelo ou roxo... Ele me seduz,
me tira de perto da cruz,
ele me escala o monte, mas mesmo que ele muito me apronte eu grito,
eu me irrito, eu caio e grito outra vez.
Afasto o medo de mim e afasto a mim de todos vocês,
pois já é tarde.

O sono me distrai
e minha fina alma se vai.

Tantas mentiras contadas e demonstradas, no silêncio, elas não existiriam.

A verdade se mostra no olhar,
não no ouvido ou na boca.
A verdade me rasga o chão e tira toda a minha roupa.
A verdade me faz brilhar como luz do dia, mas o medo
– ah que repúdio de mim -
me silencia.

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sábado, 25 de junho de 2011

Apenas eu.

Foi de tanto eu me indispor que fui imposto
Foi de tanto eu me virar que dei o rosto

Ah, noite adormecida
Faz de mim agora, apenas eu.
Deixa a luz lá fora, e o que me deu
eu quero de dentro do teu abraço.

Foi de tanto viajar que agora eu paro.
Foi de tanto eu falar, que hoje me calo.

Hoje, eu paro.

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terça-feira, 17 de maio de 2011

Confissão do poeta

Confesso que me preocupa muito voltar a escrever.
Primeiro por medo de ter perdido a sensibilidade que eu julgo ter conquistado aqui nas entrelinhas. Tenho aflição de não me mostrar mais entre os espaços das vogais. Mas o sentido de tudo isso, agora, não é esse. Agora, o sentido é não ligar pra o que é escrito. É continuar dentro de mim.
Me preocupa também minha necessidade de escrever. Há muito não sentia dificuldade em me expressar e agora? Minha principal Angústia é a de seguir o futuro, já que não tenho medo de seguir a vida, mas do futuro. A vida não se sente andar, ela faz parte de mim, ela me conta o que me excita e o que me deixa triste. O futuro não me diz nada, não me ajuda nem dá dicas. O futuro que está perto me confunde o cérebro. O que está longe, me acalma o coração.

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P-A-S-S-A

Passa uma pessoa.
Passam duas pessoas.
Passa o vento.
Você não passa.

A solidão não passa,
A melancolia não passa,
O desejo não passa.
Você dentro do meu peito não passa.

Apenas passatempos,
O tempo só passa.
Eu parado. Estático.

Esperando. Pararem as pessoas e o vento.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Amor de portugues

Quatro versos que brigavam,
e quatrocentos palavroes.
Todos corriam ataz da virgula,
e ela com o ponto final depois do nao.

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domingo, 10 de agosto de 2008

Cadeia

Enclausurado dentre de si,
Extasiado de implodir,
Fantasiado que chora de rir
E o cárcere que se diverte.

Na cela, quatro negrinhos gritando,
Um chinês que nada fala,
Tem dois branquelos rezando,
E o cárcere dispara a bala.

Morrem os negrinhos e o chinês,
E o cárcere fala: “ei vocês”!
Olhamos assustados ao escuro
E eu que escuto à outro barulho,
Branquelos ao chão e a risada ao ar,

Até agora não entendo o porquê da sentença,
Anos de solidão, afastando de qualquer crença,
Tão longe de tudo, tristeza que dói e é intensa,
É até uma ofensa, uma coisa tão imensa.

O cárcere se despede e até com humildade,
Cessa a rizada e discorda da maldade,
Até o verme carcereiro, chora e não mais ri,
Do homem enclausurado dentro de si.

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